Há quase 15 anos, Maria Madalena chega ao galpão de triagem da coleta seletiva em Contagem e repete uma rotina que, para muita gente, passa despercebida. Entre montanhas de papelão, garrafas PET, latas e embalagens descartados, ela ajuda a dar um novo destino a materiais que poderiam acabar em aterros, córregos ou lotes vagos. Mas, para ela, o trabalho representa muito mais do que reciclar resíduos. Foi ali que encontrou um novo rumo para a própria vida.
Quando chegou à associação, Maria enfrentava um dos momentos mais difíceis de sua trajetória. Havia perdido a mãe, vivia problemas familiares e lutava contra um quadro de depressão. O que começou como um curso de capacitação acabou se transformando em uma profissão, uma fonte de renda e uma rede de apoio que permanece até hoje.
“Eu cheguei aqui sem saber exatamente o que era a reciclagem. Estava passando por um momento muito difícil e precisava encontrar alguma coisa para fazer. Esse trabalho me ajudou demais. A convivência é importante, mas o próprio trabalho é uma terapia. Hoje vivo do que ganho aqui, ajudo minha filha quando ela precisa e tenho muito orgulho da história que construí dentro da associação”, contou.
A história de Maria se mistura à de dezenas de trabalhadores que fazem a coleta seletiva acontecer diariamente em Contagem. São homens e mulheres que encontraram na reciclagem uma oportunidade de trabalho, autonomia financeira e inclusão social, enquanto ajudam a construir uma cidade mais sustentável.
Política sustentável
Segundo a Associação Brasileira de Resíduos e Meio Ambiente (Abrema), o Brasil produz mais de 80 milhões de toneladas de resíduos sólidos urbanos por ano. Apesar de ser referência mundial na reciclagem de latas de alumínio, com índices superiores a 95%, a reciclagem dos resíduos urbanos ainda representa uma parcela pequena do potencial existente no país. Em Minas Gerais, a ampliação da coleta seletiva e a valorização do trabalho dos catadores têm sido apontadas como estratégias fundamentais para aumentar o reaproveitamento de materiais recicláveis e reduzir a quantidade de resíduos destinados aos aterros sanitários.
Em Contagem, esse trabalho vem ganhando força ao longo dos últimos anos. Atualmente, a coleta seletiva porta a porta atende cerca de 40% da área residencial do município, alcançando 71 bairros. Seis caminhões realizam o recolhimento semanalmente, transportando, em média, 11 toneladas de recicláveis por dia. Somente em 2025, mais de 3.200 toneladas de materiais foram processadas pelas associações parceiras do município.
A secretária de Serviços Urbanos, Renata Gomes, destacou que a coleta seletiva reúne benefícios ambientais, sociais e econômicos. “A coleta seletiva é uma política pública que conecta diferentes resultados positivos. Ela reduz a quantidade de resíduos destinados ao aterro sanitário, fortalece a economia circular e gera trabalho e renda para dezenas de famílias. Quando um morador separa corretamente seus recicláveis, ele contribui diretamente para a preservação ambiental e para o fortalecimento do trabalho realizado pelos catadores”.

Os materias recolhidos pela coleta seletiva geram renda, ajudam o meio ambiente e transforma vidas - Fotos: Luci Sallum/PMC
O avanço da coleta seletiva também é resultado dos investimentos realizados pela Prefeitura para fortalecer o trabalho desenvolvido pelos catadores. Em 2026, o município firmou um novo contrato com a Associação dos Catadores de Materiais Recicláveis de Contagem (Asmac) e a Cooperativa de Produção dos Catadores de Materiais Recicláveis de Contagem (Coopercata), ampliando os recursos destinados ao serviço e garantindo mais estabilidade para as organizações.
O contrato passou a ter vigência de dez anos, o dobro do prazo anterior, e recebeu um aumento de cerca de 40% nos investimentos. O valor anual destinado à coleta seletiva passou de R$ 2,63 milhões para R$ 3,68 milhões. Atualmente, 83 catadores e catadoras atuam diretamente no serviço, que representa trabalho, renda e inclusão social para dezenas de famílias. Em 2026, a renda média dos trabalhadores chegou a R$ 2.564,31, o equivalente a 1,58 salário-mínimo.
Os recursos também garantem melhores condições para o desenvolvimento das atividades. O contrato prevê investimentos em uniformes, equipamentos de proteção individual (EPIs), materiais de consumo, fortalecimento da gestão das associações e ações de mobilização social para orientar a população sobre a separação correta dos resíduos. A iniciativa busca ampliar a quantidade e a qualidade dos materiais destinados à reciclagem, fortalecendo toda a cadeia da coleta seletiva no município.
Por trás desses números estão os 84 catadores vinculados à Associação dos Catadores de Materiais Recicláveis de Contagem (Asmac) e à Cooperativa de Produção dos Catadores de Materiais Recicláveis de Contagem (Coopercata), responsáveis por coletar, separar e comercializar os materiais que retornam à indústria como matéria-prima.
A superintendente de Limpeza Urbana, Nilma de Souza, reforçou que o sucesso do programa depende da participação da população. “A coleta seletiva só funciona quando cada pessoa entende que tem um papel nesse processo. Separar corretamente os resíduos dentro de casa é um gesto simples, mas que gera impactos enormes para a cidade, para o meio ambiente e para os trabalhadores que vivem da reciclagem”.
É justamente nessa conexão entre cidadania, inclusão social e cuidado com o meio ambiente que a coleta seletiva se consolida como uma política pública capaz de transformar não apenas materiais descartados, mas também vidas.
Vidas transformadas
A história de Keila Lopes Barbosa com a reciclagem começou há mais de duas décadas, quando ainda era adolescente. Após perder o pai, viu a família enfrentar dificuldades financeiras e precisou ajudar a sustentar os irmãos mais novos.
“Naquela época a coleta seletiva era muito diferente. A gente fazia tudo: implantação, coleta, separação, carregamento. Sofríamos preconceito e não tínhamos a estrutura que existe hoje. Mas foi a reciclagem que me deu uma oportunidade quando eu mais precisava. Foi daqui que tirei o sustento para criar meu filho, construir minha vida e seguir em frente”, lembrou.
Ela também acompanhou a transformação do serviço ao longo dos anos. “Quando começamos, era tudo muito difícil. Hoje temos galpões, caminhões, equipamentos e mais reconhecimento. É uma conquista construída por muitas pessoas que acreditaram que esse trabalho faz diferença para a cidade”.

A coleta seletiva está mais bem estruturada e conta com equipamentos para formação de fardos, caminhões para coleta de materiais e a participação da população - Fotos: Luci Sallum/PMC
Mas quem trabalha diariamente nos galpões lembra que ainda há desafios. Um deles está relacionado à forma como alguns materiais são descartados pela população. Seringas, agulhas e outros objetos perfurocortantes muitas vezes chegam misturados aos recicláveis, colocando em risco a saúde dos catadores.
Maria conhece essa realidade de perto. “O que mais me preocupa é quando encontramos agulhas e seringas descartadas de forma incorreta. Isso coloca nossa saúde em risco. A população pode ajudar muito tendo mais atenção na hora de descartar esse tipo de material”.
Enquanto a coleta seletiva avança gradualmente para novas áreas da cidade, histórias como as de Maria e Keila mostram que a reciclagem vai muito além dos resíduos. Em cada fardo de papelão prensado, em cada garrafa PET separada e em cada caminhão que sai para a coleta existe uma rede de pessoas que encontrou neste trabalho uma oportunidade de recomeçar.
Ciclo do produto
O caminho percorrido por uma embalagem reciclável até voltar para a cadeia produtiva passa por várias etapas. Primeiro, equipes de mobilização orientam moradores e instituições sobre a separação correta dos resíduos. Eles fazem a seleção, os caminhões recolhem o material, e o transportam para os galpões de triagem. É ali que o trabalho ganha ritmo.
Papéis, plásticos, vidros e metais são separados por tipo. O papelão segue para um comprador específico. As garrafas PET passam por nova classificação. Embalagens longa vida, plásticos rígidos e outros materiais são organizados em categorias distintas antes de serem prensados e comercializados. Tudo feito manualmente por trabalhadores que conhecem cada material que passa pelas esteiras e baias de separação.
A percepção de quem utiliza o serviço ajuda a explicar a importância dessa conscientização. Moradora do bairro Novo Eldorado, a auxiliar administrativa Juliana Fernandes separa os recicláveis há cerca de três anos e percebe a diferença que pequenas atitudes podem fazer.
“Depois que comecei a separar os materiais, passei a entender melhor para onde vai o lixo que produzimos. Saber que isso ajuda famílias que vivem da reciclagem e ainda contribui para manter a cidade mais limpa me motivou a continuar e incentivar outras pessoas a fazerem o mesmo”.
Como participar da coleta seletiva
Os materiais recicláveis podem ser separados em quatro categorias principais:
Papel: jornais, revistas, caixas de papelão, cadernos, folhas e embalagens longa vida.
Plástico: garrafas PET, potes, embalagens de produtos de limpeza e higiene, sacolas e recipientes diversos.
Metal: latas de alumínio, latas de aço, tampas metálicas e outros objetos metálicos.
Vidro: garrafas, frascos, potes e recipientes em geral.
Os materiais devem estar preferencialmente limpos e secos e podem ser acondicionados juntos em sacos ou recipientes específicos para a coleta seletiva. Já resíduos orgânicos, restos de alimentos, papéis sanitários e rejeitos não devem ser misturados aos recicláveis.
Confira os bairros atendidos pela coleta seletiva e dias da semana em que ocorre o serviço:
Região Ressaca
Região Sede
Região Eldorado
Região Riacho
Região Nacional
Região Petrolândia
Região Vargem das Flores
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