A história de Contagem é muito rica e já foi adaptada de diversas formas, desde festivais, música, filmes e até mesmo via quadrinhos, com a Turma do Contagito, por exemplo. Agora, chegou a vez de dar o start no mundo dos games e transformar um dos espaços mais emblemáticos da cidade em uma experiência interativa. Em desenvolvimento por estudantes de Design Gráfico da Universidade do Estado de Minas Gerais (Uemg), o jogo Cacos transforma a Casa de Cacos em cenário de uma aventura 2D que mistura fantasia, memória e identidade cultural.
A ideia surgiu de uma visita do professor Paulo Henrique Cruz à Casa de Cacos. Morador de Contagem há quase 50 anos, ele contou que, apesar de viver praticamente toda a vida na cidade, ainda não conhecia o museu. O primeiro contato foi suficiente para despertar a inspiração. “Gente, que lugar é esse?”, lembrou o professor, ao se deparar com a história e os detalhes do espaço. A experiência acabou dando play a uma proposta que une educação, design, games e preservação do patrimônio.
O projeto é desenvolvido pelo Laboratório Interdisciplinar de Game (Liga), da Universidade do Estado de Minas Gerais (Uemg) e nasceu dentro de uma parceria com a Prefeitura de Contagem, por meio da Secretaria de Cultura. O laboratório foi criado justamente para ampliar a atuação da Escola de Design da universidade no desenvolvimento de jogos e, segundo Cruz, Cacos é o primeiro jogo digital desenvolvido pelo espaço desde sua criação. A equipe reúne cerca de 20 estudantes em diferentes frentes, como criação de personagens e de cenários, animação, programação, narrativa e mídias sociais.
Quando o esquecimento vira o grande vilão
Em Cacos, o jogador acompanha Caká, uma criança curiosa, imaginativa e aventureira que vive ouvindo da avó histórias sobre a Casa de Cacos. Durante uma excursão escolar ao museu, porém, algo inesperado acontece: Caká é transportada para uma dimensão fantástica escondida dentro da atração turística. É aí que começa a aventura.

Durante um ano e meio, o jogo passou por um processo de pré-produção até chegar à fase atual que será disponibilizada para testes no Festival Contagem Geek - Foto: Selena Souza/PMC
Inspirado no gênero platformer, conhecido por clássicos como Super Mario Bros. e Celeste, o jogo coloca o jogador diante de desafios de saltos, precisão e exploração, com o intuito de educar e contar a história do local, criando assim um sentimento maior de pertencimento e curiosidade sobre a história de Contagem. Mas existe uma diferença importante: não há inimigos tradicionais para derrotar. O grande vilão é outro (e pode ser bem mais perigoso): o esquecimento.
Dentro do universo criado pelos estudantes, o esquecimento tenta corromper aquele mundo e apagar as referências à história da Casa de Cacos. O contraste visual aparece principalmente por meio da cor magenta, utilizada como representação desse processo de corrupção. “A escolha não é apenas estética. A proposta é fazer com que a experiência de jogar também desperte a vontade de conhecer a história real do patrimônio”, explicou o professor.
Cacos quer transformar o ato de jogar em uma espécie de ponte entre passado e presente: quem conhece a Casa de Cacos poderá reconhecer elementos do patrimônio dentro do game; quem ainda não conhece pode terminar a partida querendo descobrir de onde vieram aqueles personagens, objetos e cenários.
Do real ao fantástico
Transpor a Casa de Cacos para um videogame exigiu mais do que simplesmente reproduzir seus cômodos. A equipe decidiu transformar os espaços reais em ambientes fantásticos, como se o jogador estivesse entrando na imaginação de Caká. Para os estudantes responsáveis pelos cenários, o desafio foi justamente equilibrar reconhecimento e fantasia: preservar a identidade visual da Casa de Cacos sem transformar o jogo em uma simples reprodução digital do espaço.
“A ideia era transformar a realidade dos espaços da Casa dos Cacos em cenários fantasiosos e fantásticos. O jogo tem que ser mágico! Como é para crianças, queríamos colocar uma coisa mais divertida e trazer essa estética atrativa para a galera”, contou a estudante e uma das desenvolvedoras dos cenários do jogo, Lavínia Carvalho Silva, 20.
Foto da tela do jogo Cacos - Foto: Selena Souza/PMC
Os animais e esculturas encontrados no local também ganharam espaço no universo do jogo. Entre as referências estão criaturas feitas com cacos, como o cavalo, a rã, os peixes, os pinguins e outros animais presentes na casa. A estrela, outro elemento marcante da fachada, também foi incorporada ao projeto como símbolo de orientação e guia, e acabou compondo o próprio logotipo do game.
Samuel César, 21, trabalhou no design de alguns personagens e agora é um dos responsáveis pelas mídias sociais do projeto. Ele explicou que o maior desafio foi transportar o espaço físico para o jogo em forma de personagens. “Quando começamos a fazer a Fifi, a elefanta, tivemos muita dificuldade de fazer uma forma fofa e agradável e que também tivesse alguma relação com os cacos. Então, quando acertamos, foi muito bom”, contou.
O resultado é uma versão lúdica do patrimônio, com objetos gigantes, ambientes fantásticos e elementos que parecem pertencer a um sonho.
Um jogo feito a muitas mãos
Se para o jogador tudo parece acontecer de maneira simples na tela, por trás dela existe um processo bem mais complexo. Antes de chegar à fase jogável, “Cacos” passou cerca de um ano e meio em pré-produção. Nesse período, os estudantes discutiram a narrativa, criaram personagens, testaram conceitos visuais e definiram aspectos do universo do jogo. A produção efetiva começou no início de 2026.
“Cada personagem, por exemplo, precisa ser pensado em diferentes ângulos, expressões e possibilidades de movimento. Esse material serve de referência para ilustradores, animadores e demais integrantes da equipe, garantindo que os personagens mantenham uma identidade visual consistente durante todo o desenvolvimento”, explicou João Pedro Librelon, 25, um dos ilustradores do jogo.
Além da estética, um dos pontos mais importantes do jogo é a programação, ou seja, transformar toda essa criação visual em algo que efetivamente funcione: gameplay, mecânicas, os movimentos e os desafios que conduzem o jogador pela narrativa. A estudante Sol Quaresma Crisóstomo, integrante da equipe de desenvolvimento, resumiu esse desafio. “Cada obstáculo precisa ser pensado não apenas como dificuldade, mas como parte da experiência que o jogador terá ao percorrer a fase. É o famoso “esqueleto” do game funcionando por trás daquilo que aparece na tela”.
Mais que entretenimento
Mais do que criar um jogo inspirado em um patrimônio cultural, a parceria entre a Prefeitura de Contagem e a Uemg busca aproximar a história da cidade das novas gerações por meio de uma linguagem que faz parte do cotidiano de crianças e jovens: a tecnologia.
A proposta também representa uma das principais características do Liga: colocar o conhecimento produzido dentro da universidade em contato direto com a sociedade. Para Paulo Henrique Cruz, essa é justamente a força de um projeto de extensão. “A universidade deixa seus muros e passa a produzir algo que pode ser experimentado e utilizado pela comunidade”.

Os personagens são pensado em diferentes ângulos, expressões e possibilidades de movimento a fim de garantir a identidade visual do jogo - Fotos: Selena Souza/PMC
Para o secretário de Cultura de Contagem, Gilvan Rodrigues, iniciativas como “Cacos” ampliam as possibilidades das políticas públicas de preservação e valorização do patrimônio. “A gente acredita que, dentro da política pública cultural, temos que desenvolver inúmeras parcerias para que tanto a parte do patrimônio, como da memória, sejam valorizadas”, afirmou.
Segundo o secretário, utilizar os games como ferramenta de aproximação é uma forma de transformar o conhecimento sobre a história da cidade em uma experiência mais acessível ao público jovem.
“A parceria com a Uemg vem dentro desse contexto, para a gente conseguir,
junto com a turma que tem desenvolvido trabalhos relacionados à tecnologia,
por meio de um conhecimento da história da cidade, do patrimônio histórico
da cidade, fazer o envolvimento das novas gerações com esse tema.”
A proposta dialoga diretamente com um dos conceitos centrais do projeto: a educação patrimonial. Em vez de apresentar o patrimônio apenas como algo que precisa ser preservado, a iniciativa procura criar vínculos entre os jovens e esses espaços, estimulando reconhecimento, curiosidade e pertencimento.
“Então, a gente potencializa aquilo que a gente chama de educação patrimonial, que é o reconhecimento das novas gerações e o conhecimento das pessoas, dos novinhos, dos nossos jovens, sobre o patrimônio e a história da cidade”, explicou Gilvan.
Próximo nível: Contagem Geek
Quem quiser conferir como essa ideia está tomando forma poderá experimentar uma demonstração de “Cacos” durante o 5º Festival Contagem Geek, no dia 15 de agosto, das 10h às 17h. A demo do jogo permitirá que o público conheça os cenários inspirados na Casa de Cacos, teste as mecânicas e, principalmente, ajude a equipe a aprimorar o projeto por meio dos feedbacks dos jogadores. Para os estudantes, será também uma oportunidade de colocar à prova meses de trabalho. Afinal, desenvolver um jogo é um processo de tentativa, erro, ajustes e muitas horas diante do computador.
Vida extra para a memória de Contagem
O ponto turístico, localizado no bairro Bernardo Monteiro, região Sede da cidade, nasceu da criatividade do geólogo Carlos Luís de Almeida, na década de 1960, que revestiu sua residência com fragmentos de louça e outros materiais, transformando o imóvel em uma construção única. O espaço se tornou patrimônio cultural e, depois de períodos de fechamento e restauração, voltou a receber visitantes.
Agora, quase como uma nova fase de sua própria história, a Casa de Cacos chega ao universo digital e deixa de ser apenas um lugar físico e se transforma em cenário, personagem e inspiração. Ganha novos mundos, criaturas, desafios e Caká, protagonista que precisa impedir que o esquecimento apague aquilo que torna o lugar tão especial.
E, em uma cidade cuja história é feita de tantas memórias, talvez essa seja uma das melhores formas de dar start no futuro sem perder de vista o passado.
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