O ar da sala de ensaios estremece antes mesmo que o som se dissipe. Não se trata apenas de uma experiência auditiva; o som do Taiko, a milenar arte dos tambores japoneses, é uma força física que atravessa o corpo, ressoa nos ossos e sincroniza os batimentos cardíacos da plateia com a vibração do couro. Em Belo Horizonte, esse eco ancestral atende por um nome carregado de simbolismo: Taiko Raiki Daiko.
Fundado há quase duas décadas na Associação Nipo-Brasileira de Minas Gerais, o Raiki Daiko traz consigo o pioneirismo de ter sido o primeiro grupo de Taiko, fora do tradicional eixo de imigração japonesa formado por São Paulo e Paraná, a fincar raízes em solo mineiro. E manter vivo um coletivo de tambores rituais e performáticos em Minas Gerais foi, e continua sendo, um ato de apaixonada resistência cultural.
O Taiko Raiki Daiko carrega uma marca simbólica inédita: é a única atração presente em todas as edições do Festival Contagem Geek, consolidando-se como o coração pulsante do festival, que terá sua quinta edição realizada no próximo sábado (15/8), das 10h às 17h..
Força do Trovão
Para compreender o pulsar do grupo, é preciso antes decifrar o peso de seu próprio nome. Como explicou o jornalista Vinícius Micheletto, 28, integrante do grupo e natural de São Paulo, o nome Raiki Daiko é uma invocação espiritual e poética.
"A palavra faz alusão a Raijin, o Deus do Trovão e dos Raios do folclore japonês,
frequentemente representado cercado por tambores dispostos em círculo. O termo '
Ki' refere-se ao espírito ou aos seguidores, significando 'os discípulos do Deus do
Trovão'. E 'Daiko' vem de Wadaiko, o estilo tradicional de tambor japonês que praticamos."
Historicamente, no Japão feudal, o Taiko desempenhava papéis multifacetados. Era utilizado tanto em cerimônias religiosas para invocar divindades e pedir boas colheitas, quanto nos campos de batalha para ditar o ritmo das tropas, delimitar fronteiras de vilarejos pelo alcance do som ou motivar guerreiros samurais. No estilo contemporâneo praticado pelo grupo, o Wadaiko de apresentação (Adaiko), essa herança marcial e espiritual se funde com a expressão artística moderna.
Rigor físico e mental
Engana-se quem pensa que tocar Taiko resume-se a desferir golpes com baquetas de madeira (bachi). A execução exige uma postura corporal rigorosa (kamae), resistência cardiovascular extraordinária, memória muscular apurada e absoluta sincronia coletiva. Ficar agachado por minutos seguidos enquanto se mantém o ritmo acelerado causa dores intensas nas pernas e braços, exigindo superação diária.

Concentração, ritmo, força e sincronia marcam os intensos ensaios do grupo que se intensificam antes das apresentações - Fotos: João Pedro Alcântara/PMC
Durante a preparação para campeonatos nacionais, como o Campeonato Brasileiro de Taiko, realizado no fim de julho, ou grandes espetáculos, a rotina de treinos chega a ocupar quatro a cinco dias por semana. Além dos ensaios musicais, o grupo submete-se a rotinas intensas de condicionamento físico: séries com até 150 flexões, 400 agachamentos e dezenas de abdominais, intercalados com exercícios de controle respiratório e projeção vocal.
É nessa intensidade que surge um dos conceitos mais profundos da arte: o Kiai. Muito além de um simples grito, o Kiai é a exteriorização da energia vital. É a força arrancada lá de dentro no momento de exaustão para projetar a vibração do tambor até a última fileira da plateia.
"Quando soltamos o Kiai e sentimos o Kiai do grupo,
sentimos essa força do nosso trovão chegando nas pessoas.
E quando o público grita de volta, eles transmitem o entusiasmo
deles para nós. É uma troca visceral!"
Vínculos de Afeto
Atualmente o Raiki Daiko é formado por cerca de 60 pessoas, entre pais e voluntários nos bastidores e 40 tocadores ativos, divididos em três turmas: Mirim (até 11 anos), Júnior (12 a 17/18 anos) e Livre/Sênior (a partir de 18 anos). Para eles, o grupo é frequentemente descrito como um porto seguro e uma família estendida. A adolescente Sayuri Inouebraz, 14, descendente de japoneses e moradora do bairro Venda Nova, em Belo Horizonte, relatou como a entrada no grupo transformou sua vida.
"Antes eu quase nem falava, era muito tímida. Depois que entrei no Taiko, comecei a me soltar. No começo doeu bastante a perna por causa da postura, mas quando você começa a tocar, vicia. No Raiki Daiko ninguém exclui ninguém; é como se fôssemos uma família de verdade", ,contou.
Essa dimensão humana é reforçada por Cassiano Pereira Santos, 15, morador de Belo Horizonte. Ele integra o grupo há quatro anos após ser incentivado por sua irmã. Para ele, uma palavra resume a essência do Taiko: disciplina. "Na hora em que a gente sobe no palco e vê toda a plateia prestando atenção, sente aquela emoção forte no peito. Vale todo o esforço", revelou.
Já Sofia Hikari, 17, veterana com mais de 10 anos de casa e cujos irmãos menores também ingressaram no grupo, destacou o caráter geracional da transmissão de saberes: "A gente aprende, no dia a dia, com os veteranos e passamos a tradição para os mais novos. O carinho e a vontade de ver o grupo crescer passam de irmão para irmão, de geração para geração".
Alma mineira nos tambores japoneses
Embora preserve a tradição milenar, o Raiki Daiko não se isolou em uma redoma histórica. O grupo construiu uma linguagem artística própria que dialoga diretamente com o território onde está inserido. Um dos maiores orgulhos do repertório é a composição Hagane no Tani ("O Vale do Aço"), criada para homenagear a história do estado de Minas Gerais.
A música narra a chegada dos primeiros imigrantes e trabalhadores japoneses às regiões mineradoras de Minas. Para traduzir essa narrativa sonoramente, o grupo utiliza instrumentos metálicos que simulam a mineração e posiciona os tambores de lado, executando coreografias que remetem ao movimento cadenciado das picaretas na rocha. Outras peças marcantes incluem Tachi (que encena a lenda da espada samurai) e Arashi no Ato ("O Fim da Tempestade"), composta para celebrar a renovação e a resiliência do grupo após o período crítico da pandemia.
Encontro milenar com o pop
Existe um fenômeno fascinante na recepção contemporânea do Taiko: a perfeita interação entre a tradição milenar e a cultura pop jovem. O som dos tambores permeia trilhas sonoras de animes aclamados (Naruto, Demon Slayer), produções cinematográficas e franquias mundiais de videogames musicais, como o conhecido Taiko no Tatsujin.

O Raiki Daiko marcou presença em todas as edições do Contagem Geek levando a cultura milenar japonesa ao público do festival - Fotos: Luci Sallum/PMC
Enquanto o público tradicional de colônias nipo-brasileiras assiste às apresentações com um respeito contemplativo e solene, o público geek reage com efusão, gritos de empolgação e entusiasmo contagiante. Na 5ª edição do festival, o Raiki Daiko apresentará um espetáculo eletrizante com novas composições e arranjos dedicados a Minas Gerais, renovando os laços com milhares de jovens trajando seus cosplays preferidos e apaixonados pela cultura oriental.
Eco do Trovão
Ao som compassado dos tambores, o Taiko Raiki Daiko prova que a preservação do patrimônio cultural não consiste em estagnar o passado, mas em mantê-lo vivo, pulsante e em constante diálogo com as novas gerações. Seja nos palcos solenes de campeonatos nacionais de Wadaiko ou no ápice vibrante do Festival Contagem Geek, os discípulos do trovão continuam a demonstrar que a arte milenar do tambor tem a força de unir gerações, atravessar fronteiras e fazer o coração de Minas bater no ritmo do Japão.
A apresentação do Taiko Raiki Daiko está marcada para às 13h, e acontece no palco principal. O Festival Contagem Geek é uma realização da Prefeitura de Contagem e da MH Produções Culturais, com patrocínio da Tambasa Atacadista, por meio da Lei de Incentivo à Cultura. Desde o ano passado, o evento foi incluído no calendário oficial do município como parte das comemorações do aniversário de Contagem, que, neste ano, celebra 115 anos de emancipação política.
Serviço - 5ª edição Festival Contagem Geek
Data: sábado (15/8)
Horário: 10h às 17h
Local: Parque Cataguás (antigo Parque Fernão Dias) - rua Rio comprido, 4655 - Cinco
Saiba mais: Multiverso ativado: prepare seu cosplay e venha participar 5º Festival Contagem Geek
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