Ir para o conteúdo

Prefeitura Municipal de Contagem e os cookies: nosso site usa cookies para melhorar a sua experiência de navegação. Ao continuar você concorda com a nossa Política de Cookies e Privacidade.
ACEITAR
PERSONALIZAR
Política de Cookies e Privacidade
Personalize as suas preferências de cookies.

Clique aqui e consulte nossas políticas.
Cookies necessários
Cookies de estatísticas
SALVAR
Notícias
JUL
10
10 JUL 2026
DESENVOLVIMENTO SOCIAL
Histórias de vida e resistência emocionam público em abertura do "Mulheres Negras”
receba notícias

A primeira edição do evento "Mulheres Negras: Memória, Resistência e Construção da Sociedade", promovida pela Secretaria Municipal de Desenvolvimento Social, Segurança Alimentar de Contagem, aconteceu na última quinta-feira (9/7). O encontro foi marcado por um dos momentos mais emocionantes da programação: o compartilhamento das histórias de vida de mulheres negras que, ao irem à frente de seu tempo, transformaram experiências de luta, superação e resistência em um poderoso convite à reflexão.

Mais do que homenagens, os relatos deram voz a trajetórias que muitas vezes permanecem invisibilizadas, mas que representam a realidade de milhares de mulheres negras brasileiras. Cada história apresentada evidenciou os desafios enfrentados ao longo da vida, desde o racismo e o preconceito até as dificuldades de acesso a oportunidades, mas também revelou a força, a coragem e a capacidade de transformar adversidades em caminhos de construção coletiva.

Em um ambiente de escuta, respeito e acolhimento, o público acompanhou depoimentos marcados pela emoção. Mulheres de diferentes histórias e vivências compartilharam experiências sobre trabalho, maternidade, educação, liderança comunitária, atuação no serviço público e a luta diária pelo reconhecimento de seus direitos e de sua identidade.
 

 
Mais do que um evento, o encontro reafirmou que compartilhar experiências também é um ato de conscientização. Fotos: Arquivo Desenvolvimento Social/PMC


Entre as presentes que compartilharam suas histórias estavam: Anaise Silva Fortunato Pio de Souza, professora dos anos iniciais nas redes estadual e municipal; Maristela Nogueira, docente na rede pública municipal e estadual; Gabrielle Henrique, diretora de Memória e Patrimônio Cultural do município de Contagem; Samantha Pacheco, subsecretária de Assistência Social do município de Contagem; Isa Blac, cantora, produtora cultural, fotógrafa e arte-educadora; Maria Goreth Herédia Luz, educadora e liderança ativa no acolhimento e preservação na Comunidade Quilombola dos Arturos; e a aposentada e pensionista, Baiana, de 81 anos.

Falar sobre mulheres negras, conforme relatos, é reconhecer protagonistas fundamentais na construção da sociedade. São mulheres que sustentam famílias, fortalecem comunidades, promovem o cuidado, produzem conhecimento e ocupam espaços de liderança, mesmo diante de desigualdades históricas que ainda persistem.

A subsecretária de Assistência Social de Contagem, Samantha Pacheco, também compartilhou sua emocionante trajetória na gestão do SUAS e destacou a profunda importância da representatividade nos espaços de acolhimento. Ela relembrou o impacto de sua presença na vida de jovens assistidas pelo município:

"Quando cheguei à unidade de acolhimento institucional para as meninas, percebi o impacto imediato da representatividade na vida delas. Elas se identificaram comigo na hora, vinham perto, encostavam no meu cabelo e diziam: 'Finalmente alguém como a gente para nos atender'. Aquele momento deixou claro o quanto a nossa presença nesses espaços de cuidado e gestão faz a diferença e acolhe de verdade."

O momento também despertou reflexões sobre a importância de combater o racismo em todas as suas formas e de construir políticas públicas que promovam igualdade de oportunidades e garantam direitos. 

As histórias compartilhadas mostraram que o enfrentamento às desigualdades raciais, pelo reconhecimento das experiências vividas e pela valorização das vozes que, por muito tempo, foram silenciadas. Como relatou Baiana, que fez questão de contar sua luta para aprender a ler. 

“Prometeram à minha mãe que iam me dar estudo e roupa, mas chegando lá, só me davam serviço. Falavam que negro não precisava estudar, que era burro. Mas Deus me deu o dom de ser autodidata. Aos 15 anos sem saber ler nem escrever; aprendi sozinha, juntando as letras que via em revistas. Em 1963, abriram uma escola do Mobral perto de casa, mas meu marido não me deixou estudar. Quando nossos filhos cresceram, ele dizia que eles também seriam burros, mas eu dizia que não existe ninguém burro, existe falta de interesse. Lavei roupa para fora para pagar os estudos deles e, como meu marido não tinha tempo, eu mesma os ajudava no dever de casa. Sem saber, eu ensinava e aprendia. E assim fui caminhando.”

A iniciativa integra a programação do “Julho das Pretas”, movimento que celebra o protagonismo das mulheres negras e fortalece o debate sobre igualdade racial durante todo o mês de julho. Em Contagem, a proposta nasce com o compromisso de se consolidar como uma agenda permanente de valorização da população negra e de fortalecimento das políticas públicas voltadas à promoção da equidade. 

“Essa iniciativa surgiu de inquietações pessoais e profissionais no cotidiano das redes sociais, da escuta das famílias e da percepção de como o racismo atravessa as vulnerabilidades. Estudamos, dialogamos e construímos este evento com muita responsabilidade e compromisso ético. Nosso maior desejo é que essa iniciativa deixe de ser apenas o sonho de três servidoras e passe a integrar uma agenda muito maior”, destacou a assistente social do CREAS Ressaca e uma das coordenadoras do evento, Andresa Cândida.

Ao final do encontro, ficou evidente que o maior legado da programação foi a oportunidade de ouvir histórias reais. Histórias de mulheres que resistem, inspiram, transformam e demonstram que a construção de uma sociedade mais justa passa pelo reconhecimento de suas trajetórias, de suas conquistas e de suas contribuições para o desenvolvimento da cidade. Ao dar visibilidade às vivências dessas mulheres, Contagem fortalece o compromisso com a promoção da igualdade racial, amplia o diálogo sobre os desafios ainda existentes e incentiva uma cultura baseada no respeito, na diversidade e na valorização da memória e da resistência das mulheres negras.


 
Autor: repórter Bruno Garces / Edição Carol Cunha
Seta